quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Em risco de extinção, onça-parda é morta no interior do Ceará e exibida em redes sociais

 

Uma onça-parda — Puma concolor — foi morta por caçadores na cidade de Tarrafas, na região Centro-Sul do Ceará. O crime ambiental, ocorrido em uma localidade chamada Serra Verde, foi filmado pelos infratores. Após a morte, fotos do animal foram exibidas nas redes sociais pelos moradores do sítio Ipueiras.

O Batalhão da Polícia Militar Ambiental (BPMA) de Juazeiro do Norte foi acionado para encontrar os autores do crime.

Temos os nomes e os apelidos, e estamos em diligência para encontrá-los. O pessoal do sítio vizinho confirmou. Estamos agora em busca da identificação completa e de algum objeto em flagrante do local"
Tenente José Pereira da Silva Filho
Comandante do BPMA de Juazeiro do Norte

A polícia foi acionada após uma denúncia anônima, na manhã desta quarta-feira (3), de um morador da localidade, também conhecida como Serra do Mundo, que entrou em contato com membros da Organização Não-Governamental Biodiverse, de Crato, que atua em pesquisa e ações de defesa e proteção da fauna e flora silvestre.

Segundo a bióloga Raquel Soares, que recebeu a denúncia, além de matar o felino, os caçadores teriam comido o animal. “A prática da caça, segundo a informação que temos, é que é frequente na Serra Verde. Dessa vez, a ação foi filmada e repassada em grupos de WhatsApp”, reforçou.

Após receber a denúncia, os integrantes da ONG acionaram a BPMA de Juazeiro do Norte repassando fotos, vídeos e informações. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) também recebeu a denúncia pela Biodiverse.

O sentimento que fica é de angústia, de revolta. Enquanto alguns trabalham todos os dias para manter um meio ambiente equilibrado, outros destroem e exibem como troféu. Um troféu desumano que é. Infelizmente, não é um caso isolado e a caça esportiva é uma triste realidade. Agora, temos que reconhecer que somos responsáveis por mudar essa realidade. É não se calar nessas situações", enfatiza Raquel.

De acordo com o comandante do BPMA de Juazeiro do Norte, uma equipe de policiais se deslocou até o local para averiguar o caso. A reportagem também questionou o Ibama e a Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace) sobre o caso, mas não tivemos retorno até a publicação desta matéria.

A Lei de Crimes Ambientais (Lei 9605/98), em seu artigo 29, aponta que “matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida”, é crime. A pena varia de seis meses a um ano de detenção e multa.

Conforme a IUCN (sigla em inglês para União Internacional da Conservação da Natureza) esta espécie foi avaliada para o bioma Caatinga como “Em perigo” (EN) de extinção.

"Ela já sofre com toda a derrubada de mata onde ela vive e ainda tem as queimadas que reduzem ainda mais essa área verde, além dos atropelamentos em estradas e os conflitos pela predação de animais domésticos. Se não bastasse tudo isso, ainda tem a caça", alerta a bióloga.
SEGUNDO MAIOR FELINO DAS AMÉRICAS

Conhecida também como onça-vermelha, onça-parda ou suçuarana, essa espécie é o segundo maior felino das Américas, atrás somente da onça-pintada (Panthera onca) e a quarta maior do mundo. “São animais de hábitos solitários e territorialistas, formando pares somente durante o período reprodutivo. Pode medir até 1,1 metros de comprimento e pesar até 80 quilos”, explica o biólogo Charles Sousa.

O felino tem hábito alimentar generalista, tendo uma grande variedade de presas como tatus, porcos-do-mato, quatis, aves, pacas, répteis, dentre outros.

Cada ninhada pode conter de um a seis filhotes e o tempo de vida dessa espécie varia de 8 a 10 anos. “Mas existem relatos na natureza de indivíduos que já chegaram a 13 e 15 anos”, completa Charles.

Com ampla distribuição através das Américas, a onça-parda pode ser encontrada em vários biomas, como a caatinga. “O Ceará possui registros dessa espécie, mas ainda não sabia de ocorrência por aquela região. Na foto, mostra que é um indivíduo macho”, identifica o biólogo.

Fonte: Diário do Nordeste 

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